sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O CRISTÃO E A POLÍTICA

Jairon Deodato

Rm. 13.1 “Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus.”

Paulo é categórico quando afirma da necessidade de nossa obediencia as autoridades, e fica muito claro que está falando de autoridades civis, o mesmo conselhado é dado a Tito e também feito pelo apóstolo Pedro.

Estudando o texto, acredito ser oportuno uma reflexão sobre o tema para nós Cristãos, pois nestas eleições vamos mais uma vez exercer nosso direito de voto para nossos representantes no congresso, senado e na presidencia da república, estes serão nossas autoridades civis por pelo menos quantro anos.

Por muito tempo os crentes se absteram do tema com a terrível justificativa de que um dia Jesus vai voltar e por conta disso não tem que se posicionar sobre o assunto por ser mundano, a mesmo linha de rasciocínio foi adotada para temas como meio ambiente, sexualidade, ciência, cultura. O triste desta conclusão é de que não temos formados seres pensantes sobre o tema e temos ficados a mercê de toda esta palhaçada que vimos em nosso horário político.

Frente a este show de horrores na televisão, vários projetos estão tramitando no congresso, e não temos nos dado conta da verdadeira importância, como a lei de homofobia, temas sobre o aborto, suicídio assistido, eutanásia... Me chama a atenção o número de oportunistas que querem uma “boquinha” na política, um dos candidatos abertamente disse que não sabe o que um deputado faz, todos acham graça e foi o mais votado, o que ninguém sabe é que junto com este vem mais uma série de outros arrastados pelo princípio político da proporcionalidade, motivo pelo qual tanto jogadores, palhaços, mulheres frutas são tão cobiçados pelos partidos políticos.

Vendo depoimentos na televisão, um entrevistado dizia que votaria em dado candidato palhaço por protesto, por estar de saco cheio, por não mais acreditar na política, não discordo, entretanto, de votar em um palhaço vamos perder mais quatro anos com uma piada sem graça. Interessante que não vejo qualquer candidato debatendo suas idéias, mostrando seu programa de governo, sua experiencia com a vida pública, pergunto “Qual a habilidade de um cidadão deste tem para decidir sobre os assuntos que acima citamos?”

A justificativa evangélica diz que para um país melhor se faz necessário um presidente evangélico, grande erro! Quem disse isso? Dizem que o vice de dado candidato é satanista e outra bobagens mais, irmãos nossa oração deve ser de que seja levantado um homem ou mulher com compromisso com o povo e com os interesses do país, um Cristão no poder seria otimo caso este tenha interesse em governar para crentes e não crentes, da mesma maneira que um incrédulo.

Em muitos irmãos evangélicos, vejo o desejo ardente de um presidente “crente”, como se este fosse o remidor do Brasil, é impressionante a esperança do povo para que isso aconteça, irmãos não é o presidente o seu Messias, nosso MESSIAS CHAMA-SE JESUS CRISTO!

Enquanto não volta o Senhor, nós vamos nos posicionar com um voto responsável, pois sabemos da importancia de um governo competente, serão nossas autoridades, devemos ensinar nossos filhos e debater em nossas igrejas o assunto, caso Cristãos queiram servir a Deus na política acho louvável, entretanto, este precisa entender que vai ser político de Crentes e não Crentes, e caso não governe nesta perspectiva vai cair no mesmo erro daquele que ele mais teme!

Política meu irmão, se discute sim! Que Deus nos abençoe.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Poetes a Lingua Divina


Tomo como minhas as palavras do velho pensador Ruben Alves, "a muito tempo deixei de ler a teologia para entender a Deus, e sobre seu amor, hoje leio os poetas". Eu gosto muito de poesia, e entendo que os poetas são homens Doutorados na arte de amar, estes homens tem sentimentos tão profundos e nobres que encantam quando os passam para o papel.
Poetas são homens livres, não existe regras nas escritas deles, o ponto não vai no i e ç tem som de s em qualquer circunstancia, ch ou x são a mesma coisa depende do sentimento, estes homens escrevem com o coração, o portugues não é coloquial é apenas um portugues qualquer, talvez os doutores da lingua diriam que é um portugues marginal, sem ciência. Mas como eu estava dizendo acima no texto, eu encontro a cada dia mais e mais Deus nas poesias. Eu acredito hoje em dia que poesia é uma lingua Divina, que foi esquecida pelos homens pouco se fala, desejo um dia falar o "poetes" esta lingua tão bela, fico imagindando que o Senhor Deus se expressa como um poeta, que pena que os homens o entendem como um burocrata, que cuida somente de Céu e Inferno.
Hoje eu vejo Deus como um poeta, e quando lhe falta palavras para ele fazer poesia, ele a faz com atitudes e expressão de vida, não vejo poesia mais linda do que a da paixão de Jesus, Quando ele diz Eli Eli lamá Sabactani, Deus meu Deus meu por que me Desamparaste. Este é um sentimento de poeta, o abandono, e ali o Senhor Deus fazia sua poesia, tanto é verdade, que muitos artistas com sentimentos de poetas entenderam a mensagem do Eterno, vejam a pietá do Michelangelo, expressa todo este sentimento.
Uma coisa eu te falo caro leitor, se voce quizer entender mais a Deus recorra a poesia e não a teologia, pois é nesta linguagem que Deus trabalha.
Expresso meus sentimentos aqui
HAAAA e peço desculpas pelos erros de portugues o meu é marginal.

A Deus toda a gloria

Pr. Fábio Bezerril Rodrigues
25/08/2010

segunda-feira, 5 de abril de 2010

DÍZIMOS: POR PROSPERIDADE, POR OBEDIÊNCIA, OU POR IGUALDADE?

Anderson de Oliveira Lima

Introdução:

Este breve estudo sobre o tema dos dízimos surgiu de uma necessidade prática. Na comunidade cristã em que participo temos agido com liberdade rara em relação aos dízimos e ofertas, coisa incomum se compararmos nossa prática com aquilo que vemos nas igrejas de forma geral. Nesta comunidade, cada um ajuda com os compromissos financeiros da forma que pode ou deseja, e não há qualquer exigência aos membros quanto a isso. Porém, tal prática ali, acontece de maneira natural, impensada para muitos. Creio que a maioria das pessoas, que não são muitas, não saberiam explicar a razão para essa maneira diferente de agir, e poderíamos até supor, que alguns ainda sintam-se de alguma forma culpados. Isso seria natural, já que alguns viveram muitos anos ouvindo nas igrejas evangélicas que não entregar dez por cento de seus rendimentos à igreja é roubar a Deus.

Agora, foi-me dada a oportunidade e a responsabilidade de refletir com o grupo sobre isso. Vou ler alguns dos textos bíblicos que mencionam a atitude esperada em relação às finanças do “servo de Deus”, e tentar encontrar nos textos qual a forma mais bíblica de lidar com a questão. Vamos então aos textos, fazendo breves comentários sobre eles e sua intenção original, para que ao final tiremos conclusões adequadas baseadas no conjunto, em não em alguns versículos apenas. Que essa leitura possa dissipar as dúvidas minhas e do leitor, que estando certo ou errado no presente, certamente anseia por guiar sua vida da maneira mais correta possível em relação às escrituras.

1 – Os Dízimos de Malaquias 3.7-12:

Este é o texto mais lembrado quando pensamos a respeito de dízimos. Ele tem sido tão repetido nas igrejas que na verdade ninguém mais o interpreta. Quero dizer que nossa leitura está sempre condicionada pelas muitas apresentações que no passado foram feitas diante de nós. Assim, creio que o grande desafio que temos de enfrentar é o de superar a tradição, as pré-concepções que até o momento parecem ser a maneira segura de interpretar o texto.

Vamos lê-lo em uma versão bem tradicional, de João Ferreira de Almeida, e ver o que ele diz. Mas temos de ter o cuidado de ler a unidade textual inteira, e não apenas o versículo 10, como se costuma fazer:

(7) Desde os dias de vossos pais, vos desviastes dos meus estatutos e não os guardastes; tornai vós para mim, e eu tornarei para vós, diz o SENHOR dos Exércitos; mas vós dizeis: Em que havemos de tornar? (8) Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas. (9) Com maldição sois amaldiçoados, porque me roubais a mim, vós, toda a nação. (10) Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós uma bênção tal, que dela vos advenha a maior abastança. (11) E, por causa de vós, repreenderei o devorador, para que não vos consuma o fruto da terra; e a vide no campo não vos será estéril, diz o SENHOR dos Exércitos. (12) E todas as nações vos chamarão bem-aventurados; porque vós sereis uma terra deleitosa, diz o SENHOR dos Exércitos”

Bem, para começar temos que entender que o texto trata de um problema religioso e econômico, coisas que na antiguidade não podiam ser consideradas separadamente como hoje fazemos. Todos os problemas, fossem eles econômicos, militares, de saúde, ou o que for, eram encarados como problemas também religiosos. Vejo então, que no período em que o texto foi escrito havia um problema sério com o qual o povo estava lidando, a saber, a pobreza e a fome decorrente.

O problema do povo para o qual o texto se destinava era a fome, mas o nosso é que toda a solução oferecida para a solução da fome é-nos extremamente antiquada. Como era costume na antiguidade, os homens sacrificavam animais às divindades para que seu deus mandasse chuva, para fizesse frutífera as plantações na temporada, e é disso que se trata em Malaquias 3.7-10. Esse derramamento de sangue animal como solução aos problemas sociais parece-me uma proposta equivocada.

Vamos por parte. Primeiro, no v. 7, o povo é acusado de não seguir a religião dos antepassados. Essa é a explicação dada para a situação difícil que enfrentavam, mas ignorante, esse povo nem sabe em que tem errado. O autor, falando em nome de Deus, se propõe a ensiná-los. Dos versículos 8 a 9 o suposto “pecado” é claramente exposto: eles não mais levavam seus dízimos e ofertas à casa do Senhor. Para entender isso melhor temos que voltar um pouco no tempo.

O texto em questão foi escrito provavelmente em meados do século V a.C. Após o retorno do exílio babilônico, o povo de Judá se propôs a reconstruir suas cidades e o Templo de Jerusalém. A obra foi feita por iniciativa popular, e a construção foi terminada, teve ainda dificuldades de se estabelecer como centro da religiosidade popular. Aconteceu que desde os últimos sacrifícios feitos no Templo antes do exílio tinham-se passado mais de um século, e esta geração sabia muito pouco sobre aquela antiga religiosidade baseada em sacerdotes. Consequentemente, a reinauguração do Templo deve ter decepcionado seus construtores. O número de sacrifícios e peregrinações não era o esperado, e as pessoas que viviam dos ofícios religiosos notaram que não sobreviveriam assim, sem a adesão nacional. Começou então a campanha, da qual Malaquias 3.7-10 faz parte, para a revitalização da religião do Templo.

Temos então, neste texto, uma propaganda sacerdotal, um chamado para a volta à religião dos antepassados que dá ênfase nos sacrifícios como forma de apazigua a divindade e obter boas colheitas. Porém, é curioso que essa propaganda não coincida com a principal função para a qual os sacrifícios do Templo foram criados, que é o perdão de pecados. Quero dizer que a função de perdoar pecados, fundamental na trajetória do Templo de Jerusalém, é ignorada nesse texto, e o apelo limita-se à solução da fome. Por isso nos v. 10 e 11 a recompensa pelos dízimos e ofertas não é a remissão, mas a colheita farta. Foi isso o que me fez supor que o problema mais premente daquela geração era a fome.

O autor do texto obviamente pertence à linha sacerdotal, e pedia que pessoas já empobrecidas ainda abrissem mão de parte do seu sustento para investirem no sistema religioso do Templo. Mas em nenhum momento podemos afirmar que esse autor sacerdote queria aproveitar-se da fé das pessoas para benefício próprio. Mesmo sabendo que os sacerdotes viveriam também desse investimento feito no Templo, a fé desse autor sempre respondia com sacrifícios aos problemas da sociedade. Na sua religião, ter alimento no Templo era o primeiro passo para que houvesse alimento nas aldeias, e ele facilmente relacionou a escassez do Templo com a escassez das fazendas. Como eu disse antes, essa é uma religiosidade antiga, ultrapassada, pois não acreditamos mais que sangue de animais agrada a Deus e que é preciso tais sacrifícios para que a terra produza. A produtividade dos nossos campos hoje depende de trabalho, tecnologia, e um pouco de sorte.

Agora, alguns problemas hermenêuticos. Se o texto traz uma proposta religiosa absolutamente obsoleta, por que ele é tão popular nas igrejas? Como os leitores de fé se apoderam dele fazendo-o determinante ainda hoje? Para mim, essa atualização é feita através da substituição arbitrária de elementos originais do texto por outros que nos interessam. Veja:

Nós brasileiros não somos, com algumas exceções, os judeus aos quais o texto se dirige; somos os gentios que aparecem no versículo 12 como aqueles que assistiriam a prosperidade de Judá após a revitalização do Templo. Assim, para sermos honestos, o apelo não foi dirigido a nós, embora seja esse tipo de apropriação do texto uma prática bastante comum e até aceitável pela fé. O outro problema é a “casa do tesouro”, para onde devem ir os dízimos e ofertas. Hoje toda igreja sente-se apta para isso, mas sem dúvida quem escreveu o texto discordaria dessa opinião. Na verdade, todas as ofertas e dízimos deveriam ser oferecidas no Templo de Jerusalém, e a extinção de tal Templo, mesmo para os judeus, impede a aplicação desse texto de maneira precisa. Quem diz que a casa do tesouro agora é sua igreja, obviamente está aproveitando-se do texto. Temos ainda a questão da fome. O texto procura solucionar um problema econômico nacional, e não fazer enriquecer aqueles que seguirem suas instruções, como hoje muitos acreditam.

Eu acho que se há algo que realmente poderia ser aplicado aos nossos dias a partir desse texto é que nossa fé ou práticas religiosas precisam estar voltadas principalmente para a solução da fome. Isto é, todos têm direito ao mínimo necessário para uma sobrevivência digna, humana, e é absolutamente válido chamar os homens e mulheres de fé para contribuir na solução de tal problema. A falta de comida, roupa, moradia, saúde, sempre esteve presente na história da humanidade; e a fé bíblica, como vemos a partir de Malaquias, sempre colocou essa escassez desumana em pauta. Nós é que escolhemos apenas a parte do dízimo e esquecemos sua verdadeira aplicação. No entanto, quando hoje aplicamos nossa fé na solução das crises da humanidade, não precisamos mais fazê-lo de maneira mística, pensando que sacrifícios proporcionam riquezas e paz. Agora, o que Deus requer é comprometimento com o princípio eterno e universal do amor ao próximo.

2 – Os Dízimos de Deuteronômio 14.22-29:

Posso imaginar e compreender que alguns leitores discordem das coisas que eu disse acima. Realmente, não é porque escrevi algumas páginas com uma nova proposta de interpretação que todos conseguirão abrir mão de leituras mais antigas e tradicionais, que lhes foram transmitidas por verdadeiras “autoridades espirituais”. Mas minhas conclusões sobre os dízimos e ofertas na Bíblia não se baseiam somente na minha interpretação de Malaquias; há outros textos que podem ser empregados nessa discussão, dos quais, um deles é Deuteronômio 14.22-29, que também fala sobre dízimos e que surpreendentemente é ignorado pela grande maioria dos líderes religiosos de hoje. Vamos primeiro ler o texto:

(22) Certamente darás os dízimos de toda a novidade da tua semente, que cada ano se recolher do campo. (23) E, perante o SENHOR, teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome, comerás os dízimos do teu cereal, do teu mosto, do teu azeite e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer ao SENHOR, teu Deus, todos os dias. (24) E, quando o caminho te for tão comprido, que os não possas levar, por estar longe de ti o lugar que escolher o SENHOR, teu Deus, para ali pôr o seu nome, quando o SENHOR, teu Deus, te tiver abençoado, (25) então, vende-os, e ata o dinheiro na tua mão, e vai ao lugar que escolher o SENHOR, teu Deus. (26) E aquele dinheiro darás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, e por ovelhas, e por vinho, e por bebida forte, e por tudo o que te pedir a tua alma; come-o ali perante o SENHOR, teu Deus, e alegra-te, tu e a tua casa; (27) porém não desampararás o levita que está dentro das tuas portas; pois não tem parte nem herança contigo. (28) Ao fim de três anos, tirarás todos os dízimos da tua novidade no mesmo ano e os recolherás nas tuas portas. (29) Então, virá o levita (pois nem parte nem herança tem contigo), e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, que estão dentro das tuas portas, e comerão, e fartar-se-ão, para que o SENHOR, teu Deus, te abençoe em toda a obra das tuas mãos, que fizeres.

Eis aí sob nossos narizes um texto bíblicos que oferece mandamentos sobre dízimos e que é bastante diferentes de Malaquias. Neste caso, não temos uma interpretação tradicional que condiciona nossa leitura, antes, a grande maioria dos cristãos nem mesmo o conhece. Quero comentá-lo brevemente, e o leitor deve vez ou outra voltar ao texto bíblico para confirmar se o que digo é coerente.

Primeiro, lendo o texto dos versículos 22 a 26 o que vejo é uma festa religiosa. Trata-se como antes, de um texto escrito para camponeses, que plantam e criam animais para sobreviver. Eles são chamados a investir numa festa religiosa que seria feita também no Templo de Jerusalém, o lugar que Deus iria escolher. Importante mesmo é que o dízimo de tudo deveria ler levado e comido durante a festa por toda a família. Não há entrega a sacerdotes, não há patrocínio ao Templo, mas a dedicação de uma porção da produção agrícola que é investida numa festa de comunhão e refeição comunitária.

O verso 27 fala do cuidado com os levitas. Como todos eram agricultores e tinham recebido parte da terra por herança, tinham que ajudar os levitas, que serviam religiosamente nas as aldeias e que por decreto divino não possuíam propriedades nem herança. Não tendo como plantar, eles não tinham o que comer, e era correto que a partir desse acordo nacional todos se unissem para ajudá-los. Assim, os dízimos serviam para celebrar a Deus pela produção do último ano de trabalho, para reunir a família e o povo todo em comunhão de mesa, e para não permitir que os levitas vivessem miseravelmente por causa da sua vocação.

Curioso hoje é que eles podiam administrar tal celebração por conta própria, comendo e bebendo o que desejassem. Assim, o dízimo era uma instrução que estava por conta de cada chefe de família, e o Templo ou o Estado não intervinham em sua prática.

Do v. 28 em diante o texto sofre algumas mudanças, sua redação é outra. Diz que ao final de três anos os dízimos não serão usados para a festa religiosa familiar, mas exclusivamente em boas obras para com os mais necessitados da nação. Nesta ocasião, deve-se levar o dízimo para a porta da cidade e deixar que os levitas, os órfãos, as viúvas e os estrangeiros comam até fartar-se. Nesse caso, o dízimo serve para suprir a carência das pessoas necessitadas da sua localidade. A recompensa por tal dedicação (v. 29b) é que Deus abençoa quem assim procede, fazendo prosperar as obras das tuas mãos.

Outra vez, segundo a religiosidade antiga quem agrada a Deus garante a boa colheita no ano seguinte, mas aqui não é por se queimar animais sobre um altar que se agrada a Deus. Aqui não há sacrifícios no Templo, todo o investimento é usado para solucionar a desigualdade social e fortalecer a tradição religiosa nacional. Novamente é a fé e a comida dos pobres que está em jogo. Os levitas não são prósperos, são também tão dependentes como os órfãos e as viúvas, e espera-se que em nenhuma aldeia haja pessoas morrendo de fome.

Desta vez o autor não é da estirpe sacerdotal, mas é um levita. Ele se preocupa com a celebração a Deus, com a ajuda aos pobres, e com a sobrevivência de sua própria família. O problema não é a interpretação que se faz desse texto, mas a completa falta de leitura do mesmo. Então, pergunto o que o leitor já deve estar se perguntando: Por que nas igrejas evangélicas de hoje somente Malaquias é lido? Na verdade, Malaquias é lido, porém, mal interpretado. Deuteronômio 14 não dá tanta margem para que se interprete o texto para benefício de instituições religiosas e líderes, motivo pelo qual, é um texto desconhecido da maioria. Lê-lo e comprometer-se com ele nas igrejas de hoje provocaria uma revolução na maneira de se praticar obras sociais.

Tire então suas próprias conclusões: É correto dizer que o cristão não pode administrar seu dízimo? Será que se eu levasse meu dízimo para uma instituição de caridade e não para a igreja, eu estaria roubando a Deus? Mas não vemos nos dois textos que a preocupação central é a fome, a desigualdade, a desumanidade? Para mim, tudo o que se diz atualmente nas igrejas sobre dízimo é, ou uma 1) má interpretação motivada pela tradição e falta de cultura bíblica do povo e de seus líderes, ou 2) completa manipulação interesseira do texto e da fé simplória do povo.

Mas ainda não acabei. Quero falar rapidamente de uma outra passagem bíblica, desta vez do Novo Testamento, para vermos como a oferta a Deus, também para Jesus, nunca é o caminho para a prosperidade de alguns, mas para a igualdade de todos.

3 – Nem Pobreza nem Prosperidade, Jesus quer Igualdade (Marcos 10.29-30):

Lendo o capítulo 10 de Marcos vemos que um jovem rico havia procurado Jesus. Ele seguia os mandamentos da Torá como bom fariseu, mas queria ser completo, e Jesus lhe diz que para isso era-lhe necessário vender tudo o que tinha, dar aos pobres, e segui-lo. Sabemos da história, e sabemos que o jovem não seguiu Jesus porque tinha muitas riquezas. Depois que o jovem deixa-o, Jesus aproveita a ocasião para dizer aos seus discípulos como as riquezas impedem o homem de entrar no Reino de Deus. Ficamos com a impressão de que o desejo de Jesus é que todos façam um voto de pobreza, mas isso também é um erro. Aí entra Pedro, pensando que por ter deixado tudo por Jesus irá se dar muito bem conforme o Reino irrompia. Vamos agora ver isso lendo o texto bíblico:

“(28) E Pedro começou a dizer-lhe: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos. (29) E Jesus, respondendo, disse: Em verdade vos digo que ninguém há, que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos, por amor de mim e do evangelho, (30) que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições, e, no século futuro, a vida eterna”

Agora vemos que a ação de Pedro ao deixar tudo e seguir Jesus é aprovada. Ele iria receber cem vezes mais nesse tempo, além da vida eterna; além, é claro, de perseguições. Então concluímos que temos que ser “mão aberta”, dar muito para receber muito, e a caridade é vista como um meio de ficar ainda mais rico. Novamente estamos enganados.

Na verdade, o Reino de Deus para Jesus tinha uma aplicação escatológica, ou seja, para o fim dos tempos, e outra para a vida aqui, na prática e no presente. Abrir mão de todos os bens significava fazer caridade, ajudar aqueles que já faziam parte do movimento do Reino e que não tinham mais o que comer. Imagino que as coisas funcionavam assim: Ao entrar no movimento do Reino você era convidado a doar seus bens à comunidade, ajudar os mais pobres, e assim, você mesmo não seria pobre, já que teria também o direito de possuir tudo o que a comunidade possuía. Por isso, Jesus diz que em vez de uma casa, você teria várias. Se um dia você não tivesse onde dormir, no movimento do Reino você seria acolhido por cem; se não tivesse quem o ajudasse, no movimento do Reino teria irmãos prontos a ajudar; se não houvesse uma família para o consolar, no movimento sempre haveria muitas mães que poderiam fazê-lo.

Assim, o convite para vender os bens, dar aos pobres e seguir Jesus, não era um convite à pobreza, mais um convite à comunhão plena na comunidade. Doando tudo você ajudava na solução da pobreza, na igualdade social entre membros, e recebia a garantia de sobrevivência a partir dessa mesma vida em comum. A promessa de receber cem vezes mais nesse tempo não quer dizer ficar rico, mas ter sempre o necessário para suprir suas necessidades. Ou seja, o objetivo de Jesus é oferecer a todos os seguidores uma vida digna, onde os mais ricos não são egoístas e os mais pobres não passam fome. Isso coincide com a proposta dos textos que lemos do Antigo Testamento, cujo objetivo é solucionar as injustiças através da união de um povo de fé, empenhado em construir uma sociedade melhor. Contudo, Jesus é mais radical e espera que o seguidor invista tudo, e não apenas do dízimo.

Notemos que além de oferecer vida eterna, Jesus veio para oferecer uma proposta de vida mais humana. Como me ensinou meu professor, o Dr. Paulo R. Garcia, no Reino de Deus, tanto quem já era rico e investiu muito na comunidade, quanto quem não tinha muito e pouco doou, no final do dia recebem o salário necessário para as suas necessidades (Mt 20.1-16); todos têm direito ao mesmo denário. Não trata-se de injustiça com aqueles que muito deram, mas de igualdade. Neste ponto, acredito que as instituições religiosas de hoje deixam muito a desejar.

Conclusão

Após lermos três textos, a que conclusão chegamos? Relemos três textos bíblicos, que foram escritos com um intervalo de séculos entre eles, e que sem dúvida apresentam propostas de fé e prática divergentes. Temos que escolher apenas um deles e descartar o resto? Malaquias deve continuar sendo o texto preferido para se falar da vida econômica dos cristãos?

Acho que nesse caso, as divergências entre textos sagrados devem ser ignoradas. Ou seja, se um orienta a sacrificar, o outro a patrocinar uma festa e fazer caridade na comunidade local, e o outro a doar tudo à comunidade e viver em comunhão plena de bens, penso que nenhuma dessas coisas é realmente imprescindível. Os desacordos nos mostram como eles tentaram, mas não nos dá uma proposta definitiva. Por outro lado, as convergências devem ser aproveitadas, pois esses talvez sejam os elementos inspirados dos textos, que os fizeram compor um único livro no final. Assim, temos a devoção religiosa e o comprometimento social como únicos mandamentos reais.

Hoje, as igrejas até podem solicitar dos seus membros dízimos, ofertas, e isso em si não é o problema. As questões são: A Bíblia realmente apóia os estatutos econômicos adotados pelas igrejas de hoje? Onde esse dinheiro é investido de verdade? Por que eles fazem segredo sobre o destino do nosso investimento? Qual a real motivação para tal exigência financeira, que inclusive é feita sob ameaças de condenação e acusações de roubo? Infelizmente, fala-se de manutenção de prédios, não de obras sociais, não de amenizar o problema da fome, não de investimento em educação em comunidades carentes.

Pior, a igreja não procura em nada fazer com que a consciência gananciosa dos homens de nossos dias mude; não existe nenhuma iniciativa no discurso religioso sobre dízimos que esteja voltada para transformar a vida das pessoas nesse aspecto, em fazer com que dentro dessas comunidades todos vivam dignamente. Assim, a obrigação dos membros é só dar, não decidir, não acompanhar, não julgar o que se faz com o dinheiro. Isso, ainda que não implique em desonestidade, nada acrescenta às pessoas e à sociedade. Continuam todos em suas buscas desenfreadas por cada vez mais e mais dinheiro, gastando com coisas desnecessárias, preocupando-se só consigo mesmos. A cobrança dos dízimos, então, é até prejudicial, serve para consolar nossa consciência, pois ao doá-lo achamos que já fizemos nossa parte e cruzamos os braços esperando pelo governo para a solução das crises humanas.

Para terminar, deixe-me dizer que não acho que um socialismo seja a solução para os nossos problemas. Mas independente da estratégia, nossa consciência deve ser transformada a cada dia. O Reino de Deus não se resume à vida eterna, mas também à vida digna nesta terra, para todos. Quem quer servir a Deus não pode, definitivamente, acumular riquezas enquanto vê seu irmão passando fome. Porém, se é consenso que todos temos que investir, fica em aberto a estratégia para que tais investimentos colaborem com a melhoria das condições de vida dos filhos de Deus em todas as partes.

Discursar sobre tais coisas, definitivamente, não é meu “forte”. Prefiro que minha contribuição ao leitor seja minha proposta de interpretação do texto bíblico, deixando que cada um faça com sua fé bíblica o que achar mais correto.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

PODER E AUTORIDADE

Jairon Deodato

Mateus 28:18 “...Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.”

Nos dias atuais o tema liderança tem sido um dos mais pesquisados, sobretudo no meio corporativo. É verdade que o mesmo não é desenvolvido somente nas organizações, mas o tema liderança é debatido em todos os ambientes em que estamos nos relacionando, em casa, no trabalho, na comunidade etc. Na igreja por outro lado, não é diferente dos outros ambientes e também é bastante discutido, temos visto porém pessoas que por força de suas atribuições tem se tornado verdadeiros opressores, talvez por não conhecer um princípio bastante importante sobre liderar, a saber, a diferença entre poder e autoridade, e acabam trazendo sobre seus “liderados” um verdade fardo difícil de ser suportado.

Parafraseando um dos fundadores da sociologia Max Weber, Poder é a faculdade de forçar ou coagir alguém a fazer a sua vontade, enquanto Autoridade é a habilidade de levar alguém a realizar algo de boa vontade por conta de sua influência pessoal. Poderíamos definir liderança como sendo a capacidade de influenciar pessoas para fazerem algo para o bem comum. Com base nesta definição, não encontro outra personalidade senão a de Jesus, que mais influenciou a humanidade, vejamos alguns fatos. Mais de dois bilhões de pessoas hoje se dizem Cristãos; dois dos principais feriados hoje são baseados na pessoa de Jesus Cristo, páscoa e Natal respectivamente; nosso calendário conta a partir de seu nascimento.

Jesus não estabeleceu sua liderança em Poder, focou a sua liderança no servir (Mt 20:28) e não no poder mesmo porque não tinha e nunca usou o poder para forçar ninguém a segui-lo, quem o tinha era Herodes, Pilatos, os romanos, estes sim tinham poder, mas Jesus tinha e tem muita autoridade e influencia até os dias atuais pessoas a si.

Na história a igreja primitiva estava estabelecida neste princípio de autoridade, em épocas em que o império romano massacrava as pessoas pelo poder a ela conferido, os irmãos da igreja de Atos tinham a simpatia do povo (At. 2:42 ss), pregando em nome Jesus e sendo referência nos povos da época, não obrigaram ninguém a venderem as suas propriedades, mas as pessoas se achegavam pela influencia exercida entre eles.

Notem que no versículo tema, percebemos que a Jesus foi conferido toda a autoridade e não poder, mesmo sendo Deus na condição de servo Ele não usou de poder (Cl 2:5-8), temos em Jesus o maior exemplo de um líder perfeito, Jesus atraia as pessoas para si, não com um discurso opressor muito embora tinha um discurso duro (Mt. 7.29), observa-se que as pessoas que eram rejeitadas pela religião eram atraídas por este homem justamente por as colocarem em liberdade.

O autor da carta aos Hebreus menciona bem onde devemos colocar nossos olhos, (Hb. 12:2), poderia ter citados vários líderes nas acertou em citar o maior de todos, JESUS. Esta breve reflexão nos serve de alerta, afim de que sejamos um exemplo positivo na vida dos irmãos e venhamos a influenciar positivamente a sociedade com o que temos aprendido de nosso Senhor e líder. Que este tema venha nos estimular a pensar na maneira como temos conduzido as pessoas que estão sob nossa responsabilidade ou até mesmo nossos líderes diretos.

Que Deus os abençoe.

Obs. Tema extraído do Livro “O Monge e o executivo” James C. Hunter

Por Jairon Deodato.

Que Deus os abençoe.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

HERÓIS ANÔNIMOS

Jairon Deodato

Atos 9:25

Mas os seus discípulos tomaram-no de noite e, colocando-o num cesto, desceram-no pela muralha.”

Pessoas que marcaram positivamente uma sociedade com justiça recebem este título de heróis, do contrário receberiam o título de vilões, mas não são destes que gostamos de falar e contar para as nossas crianças, as histórias dos heróis motivam, encorajam, cria esperança, temos no Brasil e no mundo uma série deles, quem nunca ouviu falar de Martin Luter King que lutou pelo direito dos negros nos Estados Unidos, Gandhi pacifista na índia nos tempos de separação dos indús e muçulmanos, Madre Tereza na defesa dos pobres em Calcutá, Chico Mendes nos diretos dos Seringueiros, Getulio Vargas na área trabalhista, e muitos outros que poderíamos citar.

Na bíblia encontramos mais um monte de personalidades que marcaram o mundo existente e que teve seus nomes gravados na história, de maneira que até os dias de hoje são lembrados, Sanção, Gideão, Moises, José, Davi, Salomão, Abraão, Jacó, Isaque... Estes nos servem como grande exemplo e são com justiça também classificados como Heróis da Fé.

Seleciono de todos os heróis a história de um deles para ilustrar a mensagem principal do artigo, seu nome: Apostolo Paulo. Arrisco-me em dizer que depois de Jesus Cristo no Novo Testamento ninguém mais do que Paulo exerceu tamanha influência, não poderíamos esperar algo diferente, lembra dos vilões? Este era um, aquele que foi escolhido como a esperança dos religiosos da época para a destruição do cristianismo, perseguiu, prendeu, matou, humilhou, forçou muitos a negarem o Senhor Jesus e sua fé, era um implacável perseguidor de cristãos.

Mas diz a história que esta situação mudou, e agora este que perseguia passa a ser perseguido após ter tido um encontro marcante com o Salvador. Daí por diante sua história de herói começa a ser escrita, três viagens missionárias, suas cartas enviadas as igrejas de Éfeso, Colossos, Filipos, Tessalônica, Roma, Corinto e tantas outras, possuem uma mensagem tão transformadora que até os dias de hoje causam o mesmo efeito, culto após culto meditamos nas palavras que Deus inspirou este homem a registrar.

Como observamos falar da vida de Paulo é extremamente fácil, a história é suficiente, entretanto, tudo o que foi escrito serve apenas de pano de fundo para a mensagem principal, ou seja, gostaria de discorrer sobre os heróis sem nomes mais conhecidos como Anônimos estes são conhecidos pela suas atuações nos bastidores, mas que são de extrema importância, o grande herói histórico não conseguiria absolutamente nada senão com auxílio destes.

Lembrando ainda da história bíblica, o que teria sido de Jeremias sem o seu escriba e amigo Baruque? O que teria sido de Moisés e o povo de Israel sem Ur e Arão para sustentar seus braços levantados durante a batalha? E ainda de Davi sem seu pequeno exercito de homens fieis? Voltando a vida de Paulo, o que teria sido de sua vida sem Barnabé (Atos 13:1-3)? Ou melhor ainda, sem a vida de Ananias? Este último entra na história para um único propósito e sai da história sem que percebamos, foi movido por Deus teve a coragem de sair à noite para orar pelo seu inimigo, ele entendeu o que disse Jesus em sobre o assunto. (Mt. 5:44).

No texto que lemos do título (Atos 9:25) o escritor não se dá ao trabalho ao menos de registrar os nomes destes homens que salvaram a vida de Paulo, imaginem o que seria hoje de nós se a fé memorável destes homens (heróis) não existisse? A grande pergunta que fica é que tipo de história estamos escrevendo de nossas vidas, a mídia, a educação domestica, a escola, nos estimulam se criarmos a vontade de estarmos para sempre na linha de frente, na vitrine para o alcance de uma vida vitoriosa, mas será que esta visão esta correta?

Paulo dá um breve testemunho do que foi estar à frente de um ministério (Filipenses 3:4-8), foi perseguido, açoitado, preso, humilhado, e como premio segundo narra a história morreu decapitado (II Cor. 11:25).

Muitos querem ser como estes homens, e este pensamento não significa estar errado, mas todos os que querem tamanho vislumbre precisam estar preparados para as possíveis conseqüências que é estar com tamanha responsabilidade.

Os discípulos de Paulo o desceram por uma corda para que este não fosse capturado e morto, uma ação que não reparamos na maioria das vezes, mas que serviu de fundamental importância para que o evangelho se tornasse conhecido no mundo existente, e a história que hoje narramos de Paulo com tanta facilidade não seria contada caso estes Anônimos não executassem seu papel, se chamado.

O que acontece é que por não conhecer o propósito de Deus para nossas vidas ficamos entre Paulo e discípulos sem nome e final muitos são frustrados porque não foram nem um nem outro. Pequenos gestos podem fazer total diferença na vida daquele que recebe, um ato de gentileza ou educação, ajudar uma pessoa com necessidades especiais, um abraço, um beijo, uma palavra, pode causar naquele que recebe um impacto muito maior do que você falando em um estádio lotado. Talvez você tenha sido chamado para orar pelos missionários e não estar no campo missionário e isto não fará de você meu irmão menos favorecido, fomos criados para a glória de Deus, cada um recebeu um dom para um fim proveitoso (I Cor. 12:7) desenvolva o seu.

Para finalizar, são minoria aqueles que estão na linha de frente de qualquer ação, estes por outro lado carecem muito da ajuda dos que estão nos bastidores.

Anônimos ou não, somos para Deus verdadeiros HERÓIS.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

COMO VIVER BIBLICAMENTE NO SÉCULO XXI

Anderson de Oliveira Lima

Primeiras Palavras

Tenho escrito muito, dezenas de páginas por semana, e gosto muito do que faço. Mas ao contrário do que se pode pensar, não escrevo somente porque tenho a intenção de ensinar, escrevo também para aprender. É escrevendo que penso melhor, que desenvolvo e organizo idéias, e tal exercício tem me servido muito bem. Hoje, voltei às letras apressadamente para meditar e ensinar algo que julgo ser de grande importância. Todo cristão busca conhecer Jesus e vê nele o maior exemplo a ser seguido, mas em algum momento da sua vida deve se perguntar como é possível realmente assemelhar-se a Cristo, posto que ele descrito em tão alto padrão. Em alguns aspectos imitar Jesus não é problema; todos sabem sentar na casa dos amigos e compartilhar uma boa ceia, todos concordam que é preciso orar, que é preciso dividir o que sobre Deus aprendemos com os outros... Todavia, quantos estão prontos a aceitar o celibato que ele aceitou? Quantos deixam casa e família para anunciar o Reino de Deus aos pobres de outras regiões? Quantos abrem mão dos poucos pães e peixes que possuem para alimentar os famintos?

Não precisamos nos alarmar por isso. É absolutamente normal que façamos uma leitura seletiva da Bíblia, o problema é que geralmente essa seleção não é consciente, mas instintiva. Em decorrência dessa inconsciência, muitos selecionam como normativos para suas vidas textos que não precisávamos levar ao “pé da letra”, enquanto descartam outros muito mais relevantes. O objetivo desse texto é distinguir três aspectos básicos da religiosidade bíblica, e avaliar qual ou quais deles são relevantes para o cristão que pretende agradar a Deus em pleno século XXI. Essa tarefa primeiro nos proporcionará, a mim e ao leitor, aprendizado, e depois nos fornecerá subsídios para a vida cristã comprometida e coerente.

Devo mencionar que mais uma vez devo a John Dominic Crossan a distinção dos três aspectos da religiosidade bíblica que vou expor, o que deixou-me encarregado apenas de transmiti-la aqui em linguagem mais acessível ao meu leitor. Aos interessados no tema peço que leiam “O Nascimento do Cristianismo”, ed. Paulinas, pp. 321-328.

Três Aspectos da Religiosidade Bíblica

A religiosidade bíblica desenvolveu, durante os vários séculos em que os judeus padeceram sob o domínio de impérios estrangeiros, diferentes alternativas de resistência à opressão baseadas na fé. Na verdade, os judeus adotaram e adaptaram formas de resistência pré-existentes em outras culturas, gerando movimentos diversos que de hoje de maneira muito genérica chamamos de “judaísmos”. O que aproxima essas diferentes formas de resistência é o que chamamos de escatologia, ou seja, a expectativa de que as circunstâncias desfavoráveis seriam transformadas no “fim”, seja esse “fim” o fim de um império, de uma era, do mundo, da sua vida terrena etc.

A primeira dessas formas de religiosidade judaica é o que chamamos de apocalipsismo. Nela, nega-se o mundo presente através da crença de que Deus intervirá de maneira decisiva na história para pôr fim às injustiças. João Batista era adepto do apocalipsismo, e advertia seus ouvintes sobre a “ira vindoura” (Lc 3.7). O anúncio do Reino de Deus, comum a João Batista e a Jesus, é também tipicamente apocalíptica, pois implica necessariamente no fim de todo governo humano para que Deus assuma o comando. O apocalipsismo não é somente esperança futura, traz consigo também certo grau de violência, que se não é humana, ao menos é divina. O que se espera é, falando francamente, uma matança dos inimigos para a inauguração de um novo mundo purificado, uma guerra do Armagedom sanguinária que inspirou muitos apocalípticos a buscarem a justiça através da guerra.

O apocalipsismo não se extinguiu, como podes pensar, e grupos de várias religiões continuam esperando um evento salvífico como a volta de Cristo, o arrebatamento da igreja, o fim do mundo... O ponto negativo é que nessa espera alguns crêem que o tempo está se esgotando e querem “converter” os outros à força. Estes e gostam de textos que dizem para quem não tem espada adquirir uma (Lc 22.36), ou que os inimigos do homem estarão na sua própria casa (Mt 10.36). Outros, mais radicais, crendo que a hora chegou se suicidam, ou partem para a guerra civil como uma forma de dar início ao julgamento escatológico como fizeram os judeus em 66-70 d.C. e Che Guevara na América há algumas décadas. Pena que a vitória pela espada nunca é definitiva, e quem vence pela espada tem que manter seu governo também pela espada, numa tensão que a qualquer momento pode explodir em novas batalhas.

O segundo aspecto da religiosidade judaica é chamado de ascetismo. Os adeptos dessa forma de religião combatem o mundo através do isolamento e da purificação individual. São ascéticos os monges e as freiras, que separam-se do mundo, seguem padrões rígidos de alimentação e jejuns, e fazem votos de castidade. Eles esperam aproximar-se de Deus afastando-se do mau que está no mundo, e consideram-se vocacionados para tal forma de vida. Protestam assim dizendo pelas atitudes de renúncia que o que há “lá fora” não é bom. João Batista era também um desses, pois isolou-se no deserto, não comia nada além de gafanhotos e mel, vestia-se humildemente, purificava-se a si e aos seus discípulos através de um banho ritual, e ao que tudo indica não tinha mulher (Mt 3.1-6). Jesus não foi tão radical na prática ascética quanto João; comida livremente e não parece ter adotado qualquer banho ritual em seu seguimento. Todavia, Jesus também deixou sua casa e família pela sua missão, não tinha esposa, e isolava-se para tempos de oração. Assim ele inspirou nossos padres ou mesmo evangélicos que gostam de subir montes e jejuar em busca de santidade.

O último tipo de religiosidade que quero mencionar é o chamado eticismo (de ética). Só pela estranheza que o nome nos transmite, já dá pra imaginar que este é o aspecto menos mencionado pelos religiosos de hoje. Neste caso a resistência ao mundo não é feita em isolamento físico, mas em mudança de atitudes cotidianas. O foco não está na intervenção de Deus, mas na mudança da sociedade injusta através das ações justas dos adeptos, inspirada, todavia, no conhecimento de um Deus que é justo. Esse tipo de religiosidade ensina a não mais participar de qualquer instituição promotora da injustiça, a não mais colaborar com a violência, com a desigualdade social, a crer que mudando as pessoas mudamos o mundo. Uma característica marcante desse tipo de religiosidade é que ela se nega a reagir a ações violentas (Mt 5.39), motivo pelo qual nasceu desde os primórdios do cristianismo a idéia de que o martírio era um privilégio a ser recebido com alegria.

Sem dúvida Jesus e os seus primeiros seguidores eram sérios adeptos desse eticismo. Jesus ensinou a dar a outra face aos que nos agridem (Mt 5.39), crendo que tal atitude resultará em vida eterna (Mt 10.28); ensinou a não dar as costas aos que nos pedem (5.42), a não cobrar pelas boas ações praticadas (Mt 10.8), a não tratar ninguém com preconceito (Mc 2.17) etc.

Que Aspecto da fé Bíblica Devemos Viver?

Tu deves ter notado que os três aspectos que distinguimos estão misturados na Bíblia e aparecem em medidas diferentes a cada personagem. Alguns são mais apocalípticos, outros mais radicais e individuais, e outros mais adeptos da sabedoria e da vida comunitária. A questão é, então, aprender a distinguir em nossa própria vida esses três aspectos e avaliar se nossas atitudes estão de acordo com nossas expectativas escatológicas. Isto é, como acreditamos que as coisas erradas podem mudar? Estamos agindo de acordo com essa nossa fé?

Minha opinião pessoal é que do apocalipsismo podemos aproveitar a fé de que esse mundo repleto de coisas negativas será transformado, e que Deus está nos esperando no fim para receber os “justos”. Mas essa esperança não deve resumir-se em passividade e nem tampouco culminar em violência. Outro ponto que merece destaque na opção pelo apocalipsismo é que a volta de Jesus, o arrebatamento, ou seja lá qual for a intervenção divina que se espera, não pode ser prevista. A atitude a se tomar é de vigilância, de esperança. Essa esperança de melhoria e a fé de que Deus não planejou tanta coisa ruim é sadia para todos nós.

Quanto ao ascetismo, creio que devemos modernizá-lo ou mesmo descartá-lo. Não acredito que o mundo será transformado pelo nosso isolamento, antes, ele nos escarnecerá. Não vejo valor algum em banhos rituais como o batismo, nem em isolamentos como fazem os monges ou os evangélicos em vigílias nos montes. Também não consigo imaginar nenhuma utilidade para os jejuns, para a assiduidade supersticiosa a todas as reuniões da igreja, ou para a castidade. Nem creio também, que o cristão de hoje deve abrir mão dos seus bens simplesmente por acreditar que a pobreza é uma virtude. Assim, em minha opinião, do ascetismo pouco se aproveita para nossos dias. Talvez a eventual prática da meditação e a abstenção de alimentos prejudiciais à saúde ou a produtos como cigarro e bebidas possa nos servir, mas em qualquer implicação espiritual. O perigo é que adotando o ascetismo em qualquer medida, sempre corremos o risco de escorregar para o rigor da lei, que sem qualquer motivo racional proíbe um de cortar o cabelo, outro de usar roupa vermelha, outro ver TV, outro de ir à faculdade, outro de se casar com pessoa de outra religião, outro de praticar esporte etc.

Porém, não há qualquer “contra-indicação” à adoção completa da religiosidade ética que predominava em Jesus e na primeira geração de cristãos (conforme os testemunhos textuais dos primeiros trinta anos de cristianismo). É desse aspecto da religiosidade bíblica que aprendemos a amar o próximo como a nós mesmos, e assim, se toda ação por nós praticada estiver condicionada por esse princípio do amor, não há como errar. O cristianismo ético baseia-se na vida real, trata dos problemas que as pessoas enfrentam no dia a dia e fala ao mundo em linguagem clara e sábia. Ele pode ser facilmente adaptado a cada nova geração, o que a torna viável e de fácil aplicação a toda cultura.

No cristianismo ético, não há criatividade para se criar animais mitológicos ininteligíveis que nunca são compreendidos e só levam a intermináveis discussõesteológicas, e nem há limites doutrinários que sem notarmos tornam-se abusivos e servem para que líderes opressores controlem as massas. Tudo é avaliado por um só critério: isso faz bem ao próximo? Então devemos fazê-lo. Isso faz mal ao próximo? Então deve ser rejeitado. Essa me parece a parte que devemos prestigiar da religiosidade bíblica; talvez, ela seja a única realmente necessária.

Eram estas as coisas que eu tinha a dizer hoje. Agora tu podes descartar o que leu, reler o texto para assimilá-lo com maior clareza, ou fazer logo sua opção e seu auto-exame. Seja qual for tua escolha, faze-a conscientemente. Decide o que vais vivenciar e o que pretendes descartar da Bíblia, e não te enganes pensando que alguém é capaz de ser tudo isso ao mesmo tempo, pois se tal coisa fosse possível, teríamos uma figura estranhíssima que certamente não desejaríamos imitar. A maneira distinta com que cada profeta, apóstolo ou messias da Bíblia montou sua própria religiosidade é sinal de que não estamos errando ao fazer isso; erramos mais quando abaixamos a cabeça e anulando a capacidade de discernir que Deus nos deu seguimos um padrão religioso que alguma igreja nos ditou. ¡Viva la revolución!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

JESUS ERA CONTRA O DIVÓRCIO?

Anderson de Oliveira Lima
Desta feita gostaria de falar sobre o texto de Mateus 5.31-32, que trata da sempre polêmica questão do divórcio. O assunto é relevante para a atualidade mas gera ainda muitas controvérsias, que como veremos, não se devem ao texto bíblico em si, mas às nossas próprias tradições. Antes de começar, para fazer justiça, devo dizer que boa parte das considerações que farei já haviam sido publicadas bem antes de mim por Gerhard Lohfink, que ao escrever o livro Agora Entendo a Bíblia: para você entender a crítica das formas (São Paulo: Paulinas, 1978), tratou do mesmo texto e divulgou conclusões muito semelhantes. Claro que eu também divulgo algumas novidades, ou não se justificaria meu estudo e eu apenas lhe indicaria a leitura da obra de Lohfink. Ao leitor, peço que veja este primeiro parágrafo como um prefácio, e o próximo como uma introdução metodológica. Peço desculpas por ter que introduzir o assunto falando de algumas questões mais técnicas, colocando o leitor a par de pressupostos importantes para o estudo dos evangelhos, que caso não fossem comentados, poderiam provocar dúvidas e parecer que nos contradizemos. Porém, faço isso de maneira sucinta, num só parágrafo; portanto, não desista da leitura nesta primeira página, seja perseverante. Depois dela cito o texto de Mateus 5.31-32 numa tradução minha; não se assuste se alguma coisa estiver diferente da versão que você conhece da sua Bíblia, eu vou explicar aos poucos estas diferenças. Aí sim, vou direto ao assunto evitando demasiados rodeios. No final faço algumas considerações práticas que são as partes mais importantes deste estudo.

Então, devemos dizer de pronto que a passagem sobre Jesus e o divórcio está presente não somente em Mt 5.31-32, mas também em Marcos 10.1-12 e Lucas 16.18. Poderíamos estudar todos os textos, ou escolher um deles. Já que escolhemos Mateus, é necessário justificar essa escolha. Em geral, os estudiosos concordam que sempre que um texto aparece em Mateus, Marcos e Lucas, a versão de Marcos é a mais antiga, e que os demais autores teriam copiado seu conteúdo uns 20 ou 30 anos depois. Porém, vê-se neste caso que a versão de Marcos está enriquecida com um contexto narrativo criado por ele próprio, o que torna o texto mais extenso. Nas versões de Mateus e Lucas, estão preservadas somente as palavras de Jesus, o que leva-nos a crer que aí temos uma versão mais original do dito de Jesus, fazendo-o mais útil para nosso propósito. Em seguida notamos que a versão de Mateus é mais completa que a de Lucas, que omite a citação à Lei do Antigo Testamento. Por tudo isso, preferimos Mateus para este estudo, embora as conclusões alcançadas aqui possam se aplicar à análise dos outros evangelhos sem maiores problemas.

Mateus 5.31-32

“E foi dito: ‘O que despede sua mulher, dê-lhe certidão de divórcio’. Mas eu vos digo que todo o que despede sua mulher (exceto caso de relações sexuais ilícitas) a faz adulterar, e o que casa com a despedida é feito adúltero”

Procurarei explicar a partir daqui o texto em si, mas deixa-me situar textualmente as palavras de Jesus primeiro: Estamos lendo um texto que faz parte de um conjunto de textos que vai de Mt 5.17-48, onde Jesus lembra uma série de mandamentos conhecidos do Antigo Testamente e os re-interpreta. É fácil notar uma estruturação no texto através da repetição do refrão: “Ouvistes que foi dito... Porém eu vos digo...”. Assim, o evangelho de Mateus apresenta Jesus como um seguidor da Lei, mas que possui uma interpretação própria desta Lei, que diferenciava-o e a seus seguidores dos demais judeus. Os mandamentos que Jesus interpreta e radicaliza são sobre homicídio, adultério, divórcio, juramentos, vingança e amor aos inimigos. Nosso tema no momento é apenas o divórcio.

Essas observações já nos dão alguns caminhos para interpretar o texto: Jesus cita um mandamento de conhecimento de toda a sua audiência: “E foi dito: ‘O que despede sua mulher, dê-lhe certidão de divórcio’”. Evidentemente ele está citando de memória uma tradição jurídica de Israel, que está baseada apenas na primeira parte do que podemos ler em Deuteronômio 24.1-4. Vou usar minhas próprias palavras para explicar esse texto: A Lei diz que um homem podia repudiar sua esposa caso não se agradasse mais dela, achando algo de inconveniente (Dt 24.1). Sem dúvida, esse “inconveniente” (hebr. ‘ervah) é uma palavra de interpretação ambígua que já nos tempos de Jesus gerava controvérsias. Poderíamos traduzir por “vergonha”, ou seguir outras traduções que o expressam por “coisa indecente”, “imoralidade sexual” ou “coisa feia”. A maneira como a interpretamos pode mudar completamente o sentido do texto, e nos dias de Jesus os homens justificavam seus divórcios associando a esta palavra qualquer motivo irrelevante (Lohfink, pp. 139-140).

Entregando à mulher uma carta, qualquer homem podia mandar a mulher embora, sem ter que dar qualquer explicação a juízes ou sacerdotes. Ela não é tão bonita quanto aquela? Tchau! Ela já não é tão jovem ou está sempre mal humorada? Adeus! Ou será que ela está com uma hemorragia que não cessa, que os curandeiros não resolvem, e por isso não lhe serve mais sexualmente? Tudo podia dar vazão a um divórcio, e a Escrituras, segundo a interpretação predominante, lhes autorizava a agir assim.

Notem que só os homens tinham esse poder. Na verdade, os textos de Deuteronômio e Mateus são escritos sob a ótica masculina, e esse é um elemento essencial para que os interpretemos. Jesus está, portanto, falando aos homens da sua geração, que certamente conheciam e aplicavam a Lei do Antigo Testamento a seus matrimônios da maneira que lhes era conveniente. Contudo, sob a ótica feminina as coisas seriam interpretadas de maneira bem diferente.

Em geral, a mulher no mundo antigo dependia economicamente do marido. Embora hoje os antropólogos acreditem que elas tinham maior autoridade na direção da casa, da família e na administração dos bens, a natural função matriarcal as impedia de viverem de maneira independente. Mulheres independentes, no antigo oriente, eram tratadas como prostitutas, mulheres de reputação questionável. Veja, por exemplo, o caso de Raabe, que é chamada de prostituta, mas que talvez fosse apenas uma mulher solteira, uma costureira independente economicamente, que vivia com sua família (Js 2.5,6,13). Como mais de 90% da população vivia do produto escasso que com muito suor tirava da sua roça, uma mulher despedida pelo marido via o novo casamento como a melhor opção de sobrevivência.

É exatamente isso que Jesus revela com suas palavras. Se o lermos com atenção, veremos que o texto diz que os homens estavam forçando as mulheres ao adultério quando se divorciavam delas (... o que despede sua mulher a faz adulterar). Mandar a mulher embora era o mesmo que obrigá-la ao novo casamento.

Outro ponto curioso: O adultério só é aplicado à mulher. Outra vez, a tradição bíblica é machista, pois os homens que despediram suas mulheres certamente tomavam outras esposas e não eram chamados de adúlteros por isso (Lohfink, p. 140). O adultério de Deuteronômio era um crime apenas feminino, e a Lei visa proteger a honra dos homens e também sua propriedade, e não a manutenção da instituição familiar, como hoje gostamos de pensar romanticamente. Esse aspecto machista da Lei Jesus não condena ou ao menos não menciona aqui, mas ele vê um mal ainda maior que estava por trás de toda essa tradição.

Depois, o texto do Antigo Testamento e o de Mateus pioram ainda mais a vida das mulheres ao dizer que um homem não pode se casar com uma mulher divorciada, ou torna-se adúltero também. Pronto! Agora, as mulheres que eram despedidas por qualquer capricho nem podiam encontrar outro marido para lhes sustentar! Os homens queriam mulheres virgens, e não repudiadas. Mas note que em minha tradução o texto diz que “... o que casa com a despedida é feito adúltero”. Deixei o texto assim de propósito, porque o verbo “adulterar” está na voz passiva, indicando que este homem que assume a mulher despedida como esposa é também vítima do primeiro marido, que a despediu.

Enfim, a Lei bíblica era seguida nos dias de Jesus, mas o resultado desta Lei era uma grande injustiça. Mulheres eram condenadas à desonra e à miséria; outras eram feitas adúlteras, assim como seus novos maridos; e tudo em nome de Deus. A verdade que Jesus traz à luz é que a mulher que se casa de novo e o homem que desposa uma divorciada, embora não sigam a Lei e sejam chamados de adúlteros, são melhores do que o religioso que com apoio nas Escrituras despediu sua mulher por qualquer motivo.

Coloquei entre parênteses em minha tradução de Mateus 5.31-32 algumas palavras que são reconhecidas por todos os estudiosos como um adendo de Mateus, porção que não estava no texto original que ele copiou de Marcos. Por meio deste acréscimo, me parece que o grupo de Mateus voltara a tolerar a “carta de divórcio” e a conseqüente punição da mulher somente em caso de “relações sexuais ilícitas”, sejam essas relações o que forem. Acho que essa correção não foi uma boa idéia de Mateus, pois esse adendo poderia gerar novas interpretações duvidosas, e invalidar toda a mensagem de Jesus conduzindo-os de volta à antiga condição. Mas deixemos esse problema de lado e sigamos à conclusão?

O Jesus de Mateus não vê problema na Lei do Antigo Testamento, embora ela seja, como já mostramos, escrita exclusivamente sob uma ótica masculina. O adultério só existia quando mulheres se envolviam com outras pessoas que não seus primeiros maridos, ou quando homens se envolviam com mulheres divorciadas. Porém, havia uma brecha na Lei que levou a hipocrisia masculina a um nível intolerável. Eles despediam suas mulheres não quando elas os traíam, mas por qualquer coisa, sem preocupar-se com a vida delas depois disso. Era uma atitude que fundamentavam citando a Bíblia, mas que na realidade era motivada por puro egoísmo, por uma completa ausência de amor humano. Jesus volta-se contra essa “brecha”, revela a crueldade que está por trás da interpretação adotada pelos homens do seu tempo.

Segundo esta leitura, a ação de Jesus não parece dedicada em primeiro plano à questão do divórcio ou ao adultério, mas à injustiça resultante de divórcios injustificados. Daí podemos fazer algumas considerações mais práticas, para que este estudo nos sirva bem no dia a dia:

1) Jesus não discute a validade da Lei, mas a interpretação que se faz dela, mostrando-nos como é fácil usar a Bíblia para justificar nossos atos injustos. Eis aí uma evidência de como é importante levar a sério o estudo da Bíblia. Em todo caso, não é preciso saber grego, mas interpretar a Bíblia juntamente com a vida, priorizando sempre o amor ao próximo, mesmo quando amar significa deixar passar algum versículo “despercebido”;

2) Se no exemplo que lemos Jesus mostrou-se contra o divórcio, foi porque o resultado deste ato era a incapacidade de ser feliz das mulheres depois de divorciadas. Hoje esse problema praticamente não existe fora da igreja, pois as mulheres são independentes economicamente, ou podem ser se assim quiserem. O mesmo argumento não pode ser empregado para defender a indissolubilidade do matrimônio nos dias de hoje;

3) Jesus não atacou diretamente a carta de divórcio de Moisés, seu problema era salvar a vida de muitas mulheres que sofriam por tal costume. Hoje, muitas pessoas querem abolir a opção do divórcio tratando-o como pecado imperdoável, mas ao fazerem isso acabam produzindo novas injustiças com pessoas que se divorciaram. Tratar quem se divorciou com preconceito, negar-lhes novas oportunidades, é em certa medida voltar à injustiça que Jesus condenou. Veja que Jesus tratou o segundo marido “adúltero” como uma vítima, e não o condenou. Meu conselho é este: prefira a companhia dos divorciados do que a companhia dos moralistas, lembre-se que Jesus andou com prostitutas, mas não com fariseus;

4) Pelo menos no texto que lemos Jesus não mudou o conceito machista de adultério que sua sociedade tinha; mas julgamos que ele estava no caminho. A busca por justiça de Jesus era também uma luta pela dignidade das mulheres. Nós já caminhamos dois mil anos e temos superado a maior parte desse problema; temos mudado essa desigualdade de gêneros e hoje reconhecemos que todas as pessoas possuem os mesmos direitos. Assim sendo, quando lemos um texto como esse em nossos dias, temos que escolher entre duas opções: Ou nós concertamos o machismo exposto na Lei bíblica negando qualquer “carta de divórcio” e aceitamos que os homens podem ser adúlteros, proibindo assim qualquer tipo de relacionamento fora do primeiro casamento, ou damos “carta de divórcio” a homens e mulheres, direitos iguais de começar de novo suas vidas em novos relacionamentos. Em ambos os casos, estejamos também conscientes de que estamos nos distanciando do que a Bíblia realmente diz; mas se optarmos pela segunda opção, ao nos distanciarmos da Lei também nos aproximamos do amor que Deus nos ensinou e que supera toda aplicação rígida de mandamentos.

Por hora já basta! Minha tentativa nestas páginas foi usar a prática exegética que geralmente é tão acadêmica, numa linguagem mais acessível. Por isso não cito textos gregos ou hebraicos, não examino variantes textuais nos manuscritos, não uso notas de rodapé, não forneço referências bibliográficas para todas as afirmações que faço, etc. Peço, então, desculpas aos amigos exegetas que esperavam tais coisas deste breve trabalho. Coloquei-me aqui a serviço da igreja, e não dos acadêmicos, coisa que raramente tenho feito. O objetivo deste estudo, que preparei em apenas 3 horas, será atingido quando ao ser lido ele dissolver algumas dúvidas comuns dos cristãos de hoje, quando ajudar as igrejas a aplicar os textos bíblicos de maneira mais coerente com as exigências da vida moderna, e quando consolar o coração de pessoas que como eu divorciaram-se, e ouviram de outros que cedo ou tarde acabariam por pagar pelo pecado cometido. Creiam que é possível ser mais feliz depois do divórcio do que antes dele, e que não há nada de demoníaco em aceitar essa felicidade.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

2010 É ANO DE O BRASIL SER CAMPEÃO

Fábio Bezerril Rodrigues
A Copa da África do Sul será a primeira a ser realizada no continente africano. Este será o maior evento esportivo no continente africano que até então não sediou nenhuma Copa do Mundo nem Olimpíadas. A batalha das seleções que irão disputar a copa começa em 11 de Junho, e só a seleção brasileira já levantou cinco vezes o caneco do torneio, 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, sendo a única seleção do mundo que nunca ficou fora do mundial.

Com relação à copa do mundo nós não temos dúvida de que a seleção brasileira é a grande favorita para levantar o caneco novamente, sabemos que Dunga e seus anões como Luiz Fabiano, Robinho e Kaká, são imperadores no meio do futebol, que competência não falta para essa seleção.

Agora o que eu quero ver neste ano de 2010 é o Brasil campeão em outra área, a das eleições que serão disputadas no começo de outubro, mais precisamente no dia 3 segundo fontes do site do TSE. Como Dunga, quero mostrar quem eu não escalaria para ficar 4 anos no poder do país.

Quero começar falando da velha dançarina do plenário a dona Ângela Guadagnin, quem não se lembra daquela “dancinha” ridícula que ela fez no plenário depois da absolvição do colega Deputado João Magno que estava sendo acusado por lavagem de dinheiro. Com uma atitude dessa eu não escalaria essa senhora pra ficar mais quatro anos para representar o povo lá dentro do plenário. E o que dizer do presidente do senado, que em atos secretos empregou parentes, foi cogitado um processo que se falou por três semanas na mídia, mas que acabou ficando por isso mesmo. E esse eu não escalo para a minha seleção para 2010.

Quem se lembra do seu Edmar Moreira, que é acusado de sonegação de impostos e uso de dinheiro publico indevidamente? Enquanto há pessoas que não tem onde morar neste país, este senhor era dono de um castelo avaliado em R$ 25 milhões de reais em Minas Gerais, que ele não declarou. A noticia que veiculou por semanas nos principais jornais do país, mas logo foi esquecida.

E o deputado Vadão Gomes que foi absolvido pelos colegas no dia 24/05/2006 após ter sido acusado por Marcos Valério de ter embolsado dinheiro no “valerioduto”? Eram cerca de 3,7 milhões de reais, e ele foi absolvido com 243 votos a favor, sendo que foi favorecido pelo esvaziamento da sessão, onde na época a folha on-line noticiou que foi o quorum mais baixo registrado até agora. Não escalado pro meu time de 2010.

Se eu colocasse a lista de todos os políticos corruptos que existem no Brasil não teria lugar pra fazer o texto, mas o que quero dizer pra você que está lendo este artigo é que fique de olho, vote consciente neste próximo ano, para depois não se arrepender e ver cenas destes caras dançando porque outro colega corrupto foi absolvido de acusações.

Como cristão inserido no mundo como estou, não posso fechar os olhos pra esse tipo de coisas, enquanto vejo pessoas sofrendo por falta de assistência governamental não posso somente orar, mas creio que como o apóstolo falou em Romanos 12.2, devo transformar a minha mente para que eu possa entregar um culto agradável e suave a Deus. Deus não está esperando que eu faça campanhas de oração em prol da nação, mas que ponha a mão na massa e viva o evangelho do reino, mostrando uma pregação não só com palavras, mas com atitudes e racionalidade.

O verdadeiro profeta de Deus é aquele que denuncia as injustiças sociais, e injustiça social é esses políticos continuarem tendo vida boa com o nosso dinheiro.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

ESCOLHA SEU MESSIAS

Anderson de Oliveira Lima
Nos primeiros anos da era cristã, o evangelho mais conhecido do mundo não era o que narra os eventos da vida de Jesus de Nazaré. O evangelho era também o termo empregado para se referir ao dia do nascimento de Otávio Augusto, imperador de Roma (30 a.C. – 14 d.C.). Há narrativas que contam que este Otávio foi concebido de maneira milagrosa, filho do deus Apolo com Ácia, sua mãe. Ele era, portanto, embora homem, um filho de deus. A data do seu nascimento também tornou-se notória com o advento da boa nova, e a província romana da Ásia Menor passou a celebrar o ano novo em 23 de setembro. Augusto era o Messias dos romanos, e apresentava-se como salvador adornado por grande riqueza enquanto sustentava sua hegemonia através de incomparável poderio militar.

O evangelho de Jesus de Nazaré, não tão original como gostaríamos que fosse, repete de maneira inegável alguns dos principais elementos que constituem as narrativas da vida de Augusto. Neste caso, não queremos discutir a questão da veracidade ou falsidade de uma ou outra narrativa, pois nenhuma delas nos dá condições de julgar sua historicidade, já que ambas, a que gostamos e a que repudiamos, foram igualmente escritas para servir de propaganda literária para pessoas que já eram veneradas. O irlandês estudioso do cristianismo primitivo John Dominic Crossan ressalta com razão, que a escolha de uma dessas narrativas e a afirmação de que a outra é falsa, é um problema ético.

Mas nestas linhas a comparação entre as duas propagandas que chamamos de messiânicas nos serve para destacar outro aspecto. De maneira muito apropriada, os cristãos primitivos fizeram questão de utilizar-se de fatores sócio-econômicos completamente contrários aos da narrativa de Augusto para narrar as ações do seu próprio Messias. Contrariando todas as expectativas humanas, alguns judeus adotaram como Messias um homem que nascera num recipiente utilizado para alimentar os animais, que trabalhara em atividade braçal num pequeno vilarejo da Galiléia, que jamais teve grandes posses e que para piorar, foi condenado por rebelar-se contra o império e crucificado ao lado de bandidos, com os quais os seus algozes certamente o confundiam.
Entretanto, com o tempo a estranheza do Messias de Nazaré foi sendo “corrigida”. A igreja transformou a imagem da manjedoura em esculturas coloridas; a cruz, instrumento de tortura e morte, foi banhada em ouro e tornou-se estandarte de poder; a comunhão de mesa onde os amigos dividiam pão e vinho tornou-se um verdadeiro culto aos mortos; e aquele que não tinha onde reclinar a cabeça passou a ser indiretamente o dono de suntuosas obras arquitetônicas. Enfim, embora sempre se pensou que o Messias dos camponeses venceu o Messias imperial, concluímos que na verdade muitos adoram o divino imperador chamando-o de Jesus.

Procuro não me importar com a opção religiosa que as pessoas fazem, pois considero pura soberba dizer que só eu tenho a “verdade”; mas me incomoda a maneira como essa sutil inversão messiânica produz consequências negativas no cristianismo que nos rodeia. Coerentes com a opção consciente ou inconsciente pelo Messias imperial, os cristãos de hoje acreditam que a paz pode ser feita por meio da espada, que a justiça divina se realizará pelo extermínio violento de todos aqueles que não adoram o seu imperador, crêem que a vinda do reino messiânico significa prosperidade, e que toda autoridade imperial é digna de irrestrita submissão.

Ora, só posso fazer agora o apelo óbvio que continuamente fazemos, para que voltemos a Jesus de Nazaré, o galileu que sempre continuará escandalizando aqueles que o compreendem. Nosso Messias foi um homem pobre, que chamava de bem-aventurados os miseráveis ou indigentes, e nos estimulou a aceitar a simplicidade em nome da igualdade humana.

Como escreveu J. D. Crossan, temos que escolher nosso Messias, seja ele alguém como o antigo imperador Otávio Augusto ou Jesus de Nazaré, cada um com sua própria proposta de salvação. Acrescento que não há nada de errado se você quer confiar no Messias imperial, mas que gostaria que se esse for o caso, que o chame de Augusto ou qualquer outro nome nobre, e não de Jesus. Quem escolhe Jesus, deve comprometer-se a lutar contra o domínio imperial e contra toda desigualdade humana, pois este é o caminho por ele indicado. Agora de maneira consciente, escolha o seu Messias e corra atrás da sua salvação.